«Que o teu filho viva amanhã no mundo dos teus sonhos»
Amílcar Cabral, Outubro de 1944

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sexta-feira, 25 de março de 2011

Andorinha cita João Rosa


Ensinar só em português prejudica alunos cabo-verdianos18 Março 2011

A utilização do Português como língua exclusiva nas salas de aula em Cabo Verde prejudica muitos alunos, razão pela qual o crioulo deve tornar-se o idioma de ensino nas escolas do arquipélago, defende o investigador João Rosa.


João Rosa, um investigador cabo-verdiano mestre em Linguística na Universidade de Massachusetts (Estados Unidos), onde lecciona, sublinhou à agência Lusa que o Português leva a que muitos alunos em Cabo Verde sejam “silenciados” nas salas de aula, dado que, fora delas só falam o Crioulo.
“A utilização do Português como língua exclusiva nas salas de aula prejudica muitos alunos cabo-verdianos que não têm acesso à língua em casa, que é a maioria dos alunos em Cabo Verde”, sustenta João Rosa, autor do recentemente editado “Discursos Linguísticos e Realidades nas Salas de Aulas – Vencendo a Luta pelo Controle”.
João Rosa frisou que, dentro das salas de aula, os alunos “são sujeitos a uma política linguística que os obriga a falar Português”, mas recusou a ideia de que a falha pertença também à própria sociedade local.
“Não acho que seja uma falha da sociedade cabo-verdiana. Desde que foi instituído nas escolas o Português tem sido uma língua protegida na sociedade. Só que a realidade ocorre em Crioulo, em Cabo-Verdiano. Acho que o Português é uma grande herança do povo cabo-verdiano, mas a prática, o ensino e a política linguística não podem sujeitar a maioria dos alunos a um silêncio dentro das salas de aula”, respondeu.
“O Português tem de ser ensinado em Cabo Verde mas como segunda língua, não como língua nativa. Essa política, por exemplo, iria diminuir as interferências linguísticas que ocorrem na maior parte da população”, sublinhou João Rosa, natural da Cidade da Praia, onde nasceu a 5 de abril de 1969 (41 anos) e residente nos EUA.
“O ensino do Português como segunda língua exigiria um ensino, na primeira fase da aprendizagem das crianças, em Crioulo. Depois, gradualmente, envolver-se-ia o Português. Não pretendo que não se deve estudar o Português em Cabo Verde. Isso seria absurdo”, acrescentou.
João Rosa lembrou que o Instituto do Crioulo Cabo-Verdiano (ICC) produz materiais escolares em Crioulo e que são utilizados no ensino sem qualquer problema.
“Esse é um debate que existe apenas em Cabo Verde e que não tem em conta o que se passa no exterior, na diáspora”, referiu o autor, argumentando que o modelo existente nos Estados Unidos prova que pode ser aplicado no país.
Fonte: Lusa, in "A Semana"

domingo, 20 de março de 2011

Andorinha em AJALPD

A Bankada Andorinha respondeu ao convite da AJALPD – Associação de Jovens Amigos da Língua Portuguesa para o Desenvolvimento e esteve presente com Clemente Mendes, Djenabú Djaló e Dionysius Aristides Charles Teodorico de Sousa Barbosa a 4 de Março num debate realizado no Centro Cultural Português em Bissau «com o objectivo de promover e desenvolver o uso da língua portuguesa no seio da sociedade guineense».
Com o seguinte programa:
09h30 – Recepção dos convidados
09h45 – Apresentação do historial da AJALPD
09h55 – Comunicação do presidente da AJALPD
1.º Tema – Pensar a Língua Portuguesa
Orador: Fernando Delfim da Silva
Moderador: Prof. Figuinho Ocaia
2.º Tema – Unidos Para Proteger o Ambiente
Orador: Secretário de Estado de Ambiente
«O objectivo principal é de pensar ceriamente em Língua portuguesa no seu método de funcionamento no nosso meio social em geral onde singio mais para a comunicação social e o problema maior que temos é na comunicação.
O Fernando disse-nos que a língua portuguesa é um veículo, tem diversidade dos pontos como os tais: ponto de vista social, económicos e ponto de vista político etc. A língua é o alicersse do nosso conhecimento adquirindo no quotidiano.
Falou também de que a chave corpo docente do português é os professores: quanto melhor o professor assim também melhor serão os alunos. A causa principal do fracaço no ensino é a situação económica do país é que levou o sistema da educação complicou-se.» [excerto do relatório de Dionysius apresentado na reunião da Bankada Andorinha]

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Andorinha cita recomendações de seminário de Língua Portuguesa

Encontro Internacional

Lisboa, 25/26 de Outubro de 2010

No quadro da comemoração do centenário da proclamação da República Portuguesa e há
mais de meio milénio depois do começo da expansão de Portugal no mundo, o que
provocou a irradiação da língua e da cultura portuguesas através dos diferentes continentes,
deve-se examinar o seu lugar e a sua presença num mundo onde a mundialização
representa ao mesmo tempo um trunfo e um desafio.

Língua de cerca de 250 milhões de pessoas, língua oficial de oito Estados (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste) e de cerca de 20 Organizações intergovernamentais, ela é ensinada em 190 estabelecimentos da África, Europa, América, Oceania e da Ásia.

No entanto, a presença real do português mantém-se fraca em muitos domínios: ciberespaço, negociações internacionais, comércio, ciências, etc. e principalmente nas agências das Nações Unidas.

Diante desta situação, a União Latina, em colaboração com a Fundação Calouste Gulbenkian, organizou este encontro internacional, que serviu de foro de discussões e de reflexão sobre o lugar da língua portuguesa. O colóquio realizou-se sob o alto Patrocínio de Sua Excelência o Senhor Presidente da República e de Sua Excelência o Senhor Presidente da Assembleia da República e recebeu o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da Fundação Luso-Americana.

As discussões foram articuladas em torno de temas como “a língua portuguesa no mundo”,” “diáspora e imigração”, “Valor económico da língua portuguesa“ e “Ciberespaço lusófono: como forma de difusão e de divulgação da língua“.

No seu discurso de encerramento, Sua Excelência o Senhor Embaixador José Luis Dicenta, Secretário Geral de União Latina, apresentou as principais recomendações exprimidas pelos participantes do encontro, ou seja.
·  utilizarem a língua portuguesa em todas as ocasiões públicas internacionais que se apresentem e sempre que possível, evitando o uso de uma língua estrangeira;
·  favorecerem uma estratégia comum das embaixadas dos países de língua portuguesa em prol da promoção do português nos diferentes países do mundo;
·  realizarem, de maneira concertada, acções que permitam a adopção da língua portuguesa como língua oficial ou de trabalho nas agências das Nações Unidas e aumentar a utilização da mesma nas organizações onde o idioma português já tem esse estatuto;
·  mobilizarem as diásporas lusofalantes como motor da promoção da língua;
·  contribuírem para uma maior presença da língua portuguesa na área das ciências e tecnologia;
·  promoverem uma política de dobragem em português para melhor difundir a língua no seio das populações dos países de língua portuguesa que apresentam altos índices de analfabetismo;
·  destacarem o valor económico da língua portuguesa, de modo a incentivar as empresas dos países lusofalantes a acompanharem a difusão e o uso da língua;
·  favorecerem a instauração de quotas mínimas de difusão de música e produção audiovisual em língua portuguesa nos media nacionais;
·  equipararem o IVA da edição digital com a edição tradicional;
·  acompanharem e apoiarem a actividade do IILP nesta nova etapa, decidida pelos países da CPLP em Brasília durante este ano;
·  elaborarem uma gramática única da língua portuguesa, que reflicta as características de todos os países que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa;
·  elaborarem um dicionário comum a todas as variantes da língua portuguesa;
·  constituirem um fundo comum aos países de língua portuguesa de terminologias científico-técnicas;
·  criarem uma dinâmica conjunta entre os países de língua portuguesa em matéria de neologismos;
·  promoverem o uso da língua portuguesa no seio das entidades internacionais e intergovernamentais;
·  promoverem uma aproximação com os espaços linguísticos próximos (isto é as línguas românicas) e em particular com os vizinhos naturais de Portugal e do Brasil, ou sejam os países de língua espanhola, sem esquecer a comunidade de fala galega.
Podem-se citar, de entre os oradores:
O Embaixador Manuel Maria Carrilho (ex-Ministro da Cultura e Embaixador de Portugal junto à UNESCO), a Dra. Isabel Alçada(Ministra da Educação), o Embaixador José Luis Dicenta(Secretário Geral da União Latina), o Dr. António Braga(Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas), o Dr.Emílio Rui Vilar (presidente da Fundação Calouste Gulbenkian), o Eng° Domingos Simões Pereira (Secretário Executivo da CPLP),o Dr. Jaime Gama (Presidente da Assembleia da República), a Dra. Paula Laborinho (Presidente do Instituto Camões), o Dr.Afonso Camões (Presidente de agência de Notícias LUSA), o Dr.Gilvan Müller de Oliveira (Director Executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa).
  
Mais informações no sítio do colóquio: http://dtil.unilat.org/coloquio_lingua_port/index.htm

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Andorinha cita Eduardo Marçal Grilo


Muitos jovens não aprendem porque não dominam a língua portuguesa, o que quer dizer que são incapazes de compreender o que é ministrado nas aulas, sejam estas de História, de Matemática ou e Física e Química. Significa isto que a melhoria do rendimento escolar está muitas vezes relacionado com um esforço a ser feito na aprendizagem da língua e que passa por quem tem responsabilidades na área da língua portuguesa, mas que não se esgota nesse esforço, dado que o trabalho a ser feito no domínio da leitura e da escrita tem de ser transversal a toda a actividade do aluno.
Eduardo Marçal Grilo, “Se Não Estudas Estás Tramado”

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Andorinha cita Maria Helena da Rocha Pereira


Os alunos estrangeiros preferem os professores brasileiros. Porquê?
Porque os brasileiros não sofreram aquele fenómeno fonético que é a desgraça da nossa língua: o fechamento das vogais pretónicas. Fiz um estudo sobre o assunto e julgo ter encontrado provas de que esse fechamento ocorreu já só no século XIX. Desde então, passámos a comer as sílabas. Outro desastre fonético foi a palatalização do «s» final. No Brasil, quando começaram a fazer telenovelas, estudaram a questão da pronúncia, nomeadamente a palatalização do «s» que se dá no estado de Rio de Janeiro. Os outros estados, de uma maneira geral, mantêm o «s» sibilado, e foi essa a pronúncia que concluíram ser a melhor para adoptar nas telenovelas. É muito mais compreensível.
Maria Helena da Rocha Pereira, em entrevista Filipa Melo (Ler – Livros & Leitores, n.º 91, Maio 2010)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Andorinha cita Filomena Embaló

Na continuação da reflexão sobre o uso da Língua Portuguesa na Guiné-Bissau, citamos um texto redigido pela Dr.ª Filomena Embaló para o Associação Contributo [www.didinho.org] – 37 anos depois de proclamada a independência da Guiné-Bissau.
«NÓS E A LÍNGUA PORTUGUESA
Ao assumir a sua independência, a Guiné-Bissau, tal como as outras ex-colónias portuguesas, adotou como idioma oficial a língua lusa. No entanto, o português era na altura falado por uma ínfima percentagem da população, um rico mosaico linguístico-cultural, compreendendo mais de duas dezenas de etnias para uma população total estimada na altura em cerca de um milhão de habitantes.
Coabitando com estas línguas autótonas e desempenhando um papel aglutinador e de língua franca, temos o crioulo guineense (kriol). Língua falada essencialmente nos centros urbanos antes da guerra colonial, com as necessidades da mobilização das populações para as causas da luta, ele chegou às diferentes regiões do país, tornando-se na língua de comunicação das diferentes etnias entre si. Com isso ganhou os galões de língua da unidade nacional ou de língua nacional, ainda durante a luta armada de libertação, podendo até ser considerado como um fator de identidade nacional.
Neste contexto pode-se perguntar por que razão não terá sido o crioulo elevado a língua oficial quando, a 24 de setembro de 1973, a bandeira nacional foi içada nas Colinas de Boé.
Podem ser avançados diferentes considerandos para a não escolha do crioulo como língua oficial, tais como tratar-se de uma língua que não é utilizada na comunicação internacional. Mas o certo é que a escolha tinha como um obstáculo incontornável o facto de o crioulo, por ser uma língua essencialmente oral e sem uma grafía única adotada, não poder desempenhar de imediato o papel de língua oficial, chamada a ser a língua escrita e a língua de ensino. Das línguas presentes no território, apenas o português respondia a esse requisito.
Hoje, embora o crioulo tenha ocupado um lugar mais importante na vida cultural nacional (com uma mais ampla utilização, particularmente a nível literário e radiofónico e ter merecido ser objeto de estudos,  por parte de linguístas nacionais e estrangeiros) continua a ser uma língua sem escrita regulamentada, apesar da existência de uma proposta para unificação da sua ortografia feita pelo Ministério da Educação guineense em 1987. Nesta proposta a ortografia é fonética e com base no alfabeto latino, mas recorrendo a empréstimos do alfabeto internacional para expressar sons do crioulo que não existem na língua portuguesa. A inexistência de uma regulamentação faz com que cada um escreva o crioulo à sua maneira, o mesmo vocábulo aparecendo com diferentes grafias. Nestas circunstâncias, ele continua a não poder assumir as funções exigidas a uma língua oficial e de ensino. A inexistência de uma grafia única é também apontada como um freio ao desenvolvimento da literatura em língua crioula. Quanto às línguas autótonas, línguas maternas da maioria da população guineense, têm também ainda um longo caminho a percorrer para a sua passagem da oralidade à escrita e para se tornarem línguas de ensino.
Em tal contexto, a língua portuguesa, herança colonial certo, mas a melhor de todas no dizer de Amilcar Cabral, para além de ser a língua oficial da Guiné-Bissau é, quer queiramos quer não, a língua que nos dá o acesso ao ensino, à ciência e ao desenvolvimento. Ela deve por isso ser assumida descomplexadamente como uma nossas das línguas nacionais! Já ouvi por várias ocasiões compatriotas nossos dizerem que pouco vale para os guineenses aprenderem a língua portuguesa, uma vez que acabam por ir estudar no estrangeiro, nem sempre num país lusófono. Pura ignorância! O que essas pessoas desconhecem é que a aprendizagem e o domínio de uma língua estruturada, como o é o português, são uma porta aberta para a aprendizagem e o domínio de outras línguas, nomeadamente as línguas românicas, que possuem estruturas idênticas. Para mim esse argumento, que classifico de falacioso, é apenas uma justificação ou uma desculpa de quem tem a consciência de não dominar a língua oficial do seu próprio país e não tem o mínimo interesse em melhorar os seus conhecimentos linguísticos. Uma atitude de puro complexo!
Infelizmente, o ensino da língua portuguesa na Guiné-Bissau, por razões várias, entre as quais a debilidade económica do Estado, sem no entanto deixar de apontar para a que considero fundamental e que é falta de uma real vontade política de se fazer desta língua um fator de desenvolvimento, defronta-se com imensos problemas e limitações. Entre estes, cito apenas alguns que me parecem cruciais. Em primeiro lugar, o fraco nível de formação dos próprios professores, quer do ensino básico, quer do secundário, que não dominando eles mesmos a língua de ensino, tornam-se em elementos multiplicadores de uma "aprendizagem" deficiente da língua portuguesa. Ainda ligada à formação dos docentes, existe a necessidade destes serem preparados para o ensino do português, não como língua materna, mas como língua segunda, na medida em que não se trata da mesma pedagogia de ensino. Outra questão é a falta de bibliotecas/centros de leitura que possam pôr à disposição dos alunos livros e, através da leitura, contribuirem para uma maior familiarização com a língua, seu aprofundamento e um maior gosto pela sua aprendizagem. Por fim, a mentalidade que existe de que "não sendo nossa, a língua portuguesa não deixa falta" ...
O resultado de toda esta complexidade de fatores é que não só os alunos não aprendem corretamente o português, mas também se debatem com imensas dificuldades na aprendizagem das outras disciplinas, devido ao não domínio da língua de ensino. Como consequência, ao sairem da formação liceal, uma boa parte (para não dizer a maioria) dos jovens não dominam a língua portuguesa e têm um fraco nível nas outras matérias. E isso constata-se nos que vão estudar para o estrangeiro, muitos deles sendo obrigados a desistir dos estudos. Por outro lado, não é raro ver estudantes guineenses que mesmo tendo ido para países de língua portuguesa, Portugal e Brasil nomeadamente, arrastam essa deficiêncialinguística até ao fim das suas licenciaturas e até mesmo doutoramentos. E o que é grave, ainda, é que para muitos o português permanece um idioma estrangeiro, que por falta do seu domínio têm vergonha de falar, reforçando assim a engrenagem no sentido da sua desaprendizagem.
É preocupante esta situação e as autoridades educativas deveriam levar a sério o ensino da língua oficial na formação dos recursos humanos da Nação. Para a Guiné-Bissau não é um "luxo" ter-se o domínio do português. É uma necessidade imperiosa para a formação dos seus recursos humanos com vista ao o desenvolvimento económico, social e político, pois é através dessa língua que se acede ao conhecimento, mesmo se mais tarde a formação venha a ser completada no estrangeiro.
Um outro elemento a ter em conta para promoção e preservação da língua portuguesa, é o papel que a Guiné-Bissau pode desempenhar, juntamente com Cabo Verde, na criação de consensos num contexto regional em que dos 15 países da CEDEAO, 5 têm como língua oficial o inglês e 8 o francês.
Encorajo as ONG e associações que trabalham com jovens a darem uma atenção particular a este aspeto da formação da nossa juventude, através da dinamização de atividades que estimulem a aprendizagem do português, como a criação de centros de leitura nos bairros, a realização de pequenos concursos literários, a realização de peças de teatro em língua portuguesa e outras que a imaginação e as condições possam permitir.
A este propósito, para finalizar, gostaria de aqui apresentar um projeto/programa radiofónico emitido desde 2008 na Guiné-Bissau, mais precisamente em Cantchungo, que, indo no sentido do que aqui preconizo, tem como objetivo a promoção da língua portuguesa e da cultura em língua portuguesa, com o fim de sensibilizar os jovens e levá-los a "praticarem a oralidade e ultrapassarem o receio de falarem em português".
Trata-se do programa ANDORINHA na Rádio Comunitária Uler A Baand, promovido por Marcolino Elias Vasconcelos, professor no Liceu Regional Hô Chi Minh, e António Alberto Alves, sociólogo e voluntário. Com uma periodicidade semanal, todas as quintas-feiras entre as 20H30 e 21H30 na frequência de 103 MHz, este programa tem como grupos-alvo professores e alunos de português e pessoas interessadas nesta língua e na cultura em língua portuguesa e tem vindo a despertar um grande interesse no seio da população.
Para mais informações, convidamos a consultarem o site do projeto e a documentação constante nos enlaces que se seguem:
(1) Tal como os meus últimos artigos, este texto obedece ao Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
[A autora nasceu em Angola, filha de pais cabo-verdianos e tem nacionalidade Bissau-Guineense. Formou-se em Ciências Económicas na França e ocupou cargos na Função Pública bissau-guineense, no país e no exterior. Actualmente, além de contribuir para o projeto Didinho.org, trabalha em Paris, na organização intergovernamental União Latina.]

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Andorinha cita Amílcar Cabral

Com a intenção de se lançar uma reflexão e debate sobre o uso da Língua Portuguesa na actual Guiné-Bissau, iniciamos por citar o que Amílcar Cabral escreveu sobre o assunto:
«[...] Devemos combater tudo que seja oportunismo, mesmo na cultura. Por exemplo, há camaradas que pensam que, para ensinar na nossa terra, é fundamental ensinar em crioulo já. Então outros pensam que é melhor ensinar em fula, em mandinga, em balanta. Isso é muito agradável de ouvir; os balantas se ouvirem isso ficam muito contentes, mas agora não é possível. Como é que vamos escrever balanta, agora? Quem é que sabe a fonética do balanta? Ainda não se sabe. É preciso estudar primeiro, mesmo o crioulo. Eu escrevo, por exemplo, n’ca na bai. [N’ca na bai: não vou!] Um outro pode escrever, por exemplo, n’ka na bai. Dá na mesma. Não se pode ensinar assim. Para ensinar uma língua escrita é preciso ter uma maneira certa de a escrever, para que todos a escrevam da mesma maneira, se não é uma confusão do diabo.
Mas muitos camaradas, com sentido oportunista, querem ir para a frente com o crioulo. Nós vamos fazer isso, mas depois de estudarmos bem. Agora a nossa língua para escrever é o português. Por isso é que tudo vale a pena falar-se aqui tanto o português como o crioulo. Não somos mais filhos da nossa terra se falarmos crioulo, isso não é verdade. Mais filho da nossa terra é aquele que cumpre as leis do Partido, as ordens do Partido, para servir bem o nosso povo. Ninguém deve ter complexo porque não sabe balanta, mandinga, papel ou fula ou mancanha. Se souber, melhor, mas se não sabe, tem que fazer com que os outros o entendam, mesmo que for por gestos. [...]
Temos que ter um sentido real da nossa cultura. O português (língua) é uma das melhores coisas que os tugas nos deixaram, porque a língua não é prova de nada mais senão um instrumento para os homens se relacionarem uns com os outros; é um instrumento, um meio para falar, para exprimir as realidades da vida e do mundo. Assim como o homem inventou o rádio para falar à distância, sem falar com a língua, só com sinais, o homem através do tempo do seu desenvolvimento começou a falar, a necessidade de comunicar-se fê-lo começar a falar. Desenvolveu as cordas vocais, etc., até falar. E como a língua depende do ambiente em que se vive, cada povo criou a sua própria língua.
Se repararmos, por exemplo, na gente que vive perto do mar, a sua língua tem muita coisa relacionada com o mar; quem vive no mato, a sua língua tem muita coisa relacionada com as florestas. Um povo que vive no mato, por exemplo, não sabe dizer bote, não conhece o bote, não vive no mar. Por exemplo, na linguagem de certos povos da Europa, as coisas dom mar, da navegação, dizem-se como em português, porque os portugueses viviam junto ao mar. Tudo isso tem a sua razão de ser.
A língua é um instrumento que o homem criou através do trabalho, da luta para comunicar com os outros. E isso deu-lhe uma grande força nova, porque ninguém mais ficou fechado consigo mesmo: passaram a comunicar uns com os outros, homens com homens, sociedades com sociedades, povo com povo, país com país, continente com continente. Que maravilha! Foi o primeiro meio de comunicação natural que houve, a língua. Mas o mundo avançou muito, nós não avançamos muito, tanto como o mundo, e a nossa língua ficou ao nível daquele mundo a que chegámos, que nós vivemos, enquanto o tuga, embora colonialista, vivendo na Europa, a sua língua avançou bastante mais do que a nossa, podendo exprimir verdades concretas, relativas, por exemplo, à ciência. Por exemplo, nós dizemos assim: a Lua é um satélite natural da Terra. Satélite natural, digam isso em balanta, digam em mancanha. É preciso falar muito para o dizer, é possível dizê-lo, mas é preciso falar muito, até fazer compreender que um satélite é uma coisa que gira à volta de outra. Enquanto que em português basta uma palavra. Falando assim, qualquer povo no mundo entende. E a matemática, nós queremos aprender matemática, não é assim? Por exemplo: raiz quadrada de 36. Como é que se diz raiz quadrada em balanta? É preciso dizer a verdade para entendermos bem. Eu digo, por exemplo: a intensidade de uma força é igual à massa vezes aceleração da gravidade. Como é que vamos dizer isso? Como é que se diz aceleração da gravidade na nossa língua? Em crioulo não há; temos que dizer em português.
Mas para a nossa terra avançar, todo o filho da nossa terra, daqui a alguns anos, tem que saber o que é aceleração da gravidade. Não explico isso agora, porque não há tempo, temos muito trabalho. Mas camaradas, amanhã, para avançarmos a sério, não só os dirigentes: todas as crianças de 9 anos de idade têm que saber o que é a aceleração da gravidade. Na Alemanha, por exemplo, todas as crianças sabem isso. Há muita coisa que não podemos dizer na nossa língua, mas há pessoas que querem que ponhamos de lado a língua portuguesa, porque nós somos africanos e não queremos a língua de estrangeiros. Esses querem é avançar a sua cabeça, não é o seu povo que querem fazer avançar. Nós, Partido, se queremos levar para a frente o nosso povo, durante muito tempo ainda, para escrevermos, para avançarmos na ciência, a nossa língua tem que ser o português. E isso é uma honra. É a única coisa que podemos agradecer ao tuga, ao facto de ele nos ter deixado a sua língua, depois de ter roubado tanto da nossa terra. Até um dia em que de facto, tendo estudado profundamente o crioulo, encontrado todas as regras de fonética boas para o crioulo, possamos passar a escrever o crioulo. Mas nós não proibimos ninguém de escrever o crioulo: se alguém quiser escrever o crioulo, se alguém quiser escrever uma carta ao Tchutchu em crioulo, pode escrever. Somente ele, na resposta que lhe mandar, vai escrever de maneira diferente, mas faz-se compreender. Mas para a ciência, o crioulo não serve. Mesmo em balanta, lembro-me de um camarada nosso, que infelizmente morreu, Ongo, nós escrevíamos em português, passávamos para crioulo e ele escrevia em balanta. Porque é possível escrever balanta. Uma pessoa que sabe bastante português é capaz de escrever balanta. Diz, por exemplo, Watna [Watna: vamos] ou, então, n’calossa [N’calossa: eu vou]. Eu sei escrever, mas escrevo à minha maneira; outra pessoa já escreve à sua maneira. Mesmo «djarama» [«Djarama»: obrigado!] em fula pode escrever-se com o d e j, ou pode escrever-se só com j, mas lê-se djarama porque o j no começo da palavra pode ter o valor de dj. Mas temos que arranjar uma regra primeiro. Tem que ser, camaradas, porque temos de tirar o máximo proveito da experiência de outros povos, não só da nossa própria experiência. Mas se quisermos empregara essa experiência para a utilizarmos na nossa terra, temos que utilizar as expressões doutras línguas. Ora se temos se temos uma língua que pode explicar tudo isso, usemo-la, não faz mal nenhum.
Para nós tanto faz usar o português, como o russo, como o francês, como o inglês, desde que nos sirva, como tanto faz usar tractores dos russos, dos ingleses, dos americanos, etc., desde que tomando a nossa independência nos sirva para lavrar a terra. Porque a língua é um instrumento, mas pode acontecer que tenhamos já uma língua que pode servir e que toda a gente entende. Então não vamos pôr toda a gente a aprender o russo, não vale a pena, tanto mais que temos uma língua que é o crioulo, que é parecida com o português. Se nas nossas escolas ensinamos aos nossos alunos como é que o crioulo vem do português e do africano, qualquer pessoa saberá português muito mais depressa. O crioulo prejudica quem aprende português, porque não sabe qual é a ligação que existe entre o português e o crioulo, mas se se conhecer a ligação que há, isso facilita aprender o português. [...]»
“P.A.I.G.C. – Unidade e Luta” Amílcar Cabral, Publicações Nova Aurora, Textos Amílcar Cabral / Nº 2, Lisboa, 1974, p. 246